sexta-feira, 27 de julho de 2007

PSD: Que liderança?

No artigo que recentemente escreveu, “Contra o medo, liberdade”, Manuel Alegre dizia a dada altura, quando se referia às oposições ao actual Primeiro-Ministro: “A verdade é que não se perfilam, por enquanto, nenhumas alternativas à sua liderança. Nem dentro do PS nem, muito menos, no PSD.” Alegre constatava uma evidência. Não é algo que não fosse possível de perspectivar há dois anos atrás. É, de certo modo, natural que dentro do PS não sujam vozes dissonantes. A maioria tem que dar imagem de consenso e apoio ao Governo. Afinal as sondagens continuam a ser favoráveis! Por outro lado, não é fácil ser oposição a uma maioria absoluta e muito menos quando não se perspectivam eleições à porta! Não foi por acaso que só dois candidatos quiseram lutar pela liderança do PSD aquando da última contenda pelo cargo. E mesmo um deles, Filipe Menezes, só o fez porque tinha um objectivo maior: estava mais interessado em ganhar o seu espaço de potencial candidato em próximas disputas do que, propriamente, ganhar aquela em questão.
Daí a trivialidade da constatação. Os críticos do PS não têm condições favoráveis à contestação e o PSD vive o pior cenário para actuar como oposição.

Este panorama não é novo em Portugal. Aconteceu há bem pouco tempo, primeiro nos tempos áureos do Governo de Cavaco Silva e depois, durante menos tempo, nos primeiros anos de governação de António Guterres.

Aproveitei a citação de Alegre porque ela é de todo actual em tempo de eleições no PSD. Sou militante deste partido há muitos anos e partilho dos seus fundamentos há alguns anos mais. E, como militante, renovo nestes tempos a esperança de ver no meu Partido uma liderança forte, capaz de me fazer acreditar, de novo, que são os ideais relativos à pessoa humana e à sua vivência em sociedade que estão na base da acção política.

Existe uma dificuldade que só os militantes do PSD têm na altura de escolher um líder para o seu Partido. No seu subconsciente estão sempre duas referências, Francisco Sá Carneiro e Aníbal Cavaco Silva, que pelas suas virtudes e carismas tornam muito difícil a escolha de um novo líder. É impossível não fazer a comparação, pelo que, saímos sempre um pouco desiludidos com as novas escolhas.
A verdade é que, apesar das suas competências, os últimos eleitos nunca satisfizeram as nossas ambições. E o PSD é assim, vive muito do seu líder, do seu carisma em especial.

Que dizer então do próximo acto eleitoral no PSD e dos candidatos que se perfilam?
A primeira observação refere-se à vontade de ir a votos. A ideia que transparece é que ainda é cedo. Há mais dois anos de oposição pela frente. Talvez daqui a um ano a vontade de ser candidato seja maior.
Marques Mendes leu bem esta realidade. Sabendo da pouca vontade dos seus “incógnitos” opositores internos obrigou-os a decidir: ou revelam-se agora ou esperam mais dois anos!
Filipe Menezes viu-se numa encruzilhada. Foi ele que deu a cara como oposição interna e, sabendo que este talvez não seja ainda o timing certo para si, foi obrigado a decidir.
Há ainda um terceiro candidato cujo o impacto no resultado final me parece ser reduzido.

Marques Mendes foi, para alguns, uma desilusão.
Não partilho desta ideia mas reconheço que faltou alguma coisa. As condições foram complicadas. Até se obtiveram algumas vitórias (nas autárquicas, por exemplo). A comunicação social nunca rumou a nosso favor, é certo. Mas alguma coisa faltou. Houve falhas imperdoáveis sob o ponto de vista de visão política (esta da Câmara de Lisboa foi uma delas!). O Governo esteve sempre muito à vontade para fazer o que bem entendeu. A Democracia ficou a perder e a nossa vontade participar é cada vez menor.
O próprio partido não recuperou de certos vícios que o enfermam. O aparelho, nacional ou local, deixa pouco ou nenhum espaço para a discussão do que é importante. Onde está a abertura à sociedade? Revejo-me cada vez menos nos que suportam ou fazem parte desse aparelho e, com isso, esqueço os princípios e as ideologias que me fizeram dar a cara por este Partido. Dou por mim a questionar o papel dos partidos no actual sistema político. Farão ainda sentido? Se não são os ideais que nos unem o que nos unirá então? O que justifica sermos Partido?

Uma liderança com Luís Filipe Menezes é difícil de perspectivar.
Um olhar pela história leva-nos ao congresso em que proferiu as célebres palavras “sulistas, elitistas e liberais” que o remeteram a uma clausura que só em termos regionais lhe permitiu alguma liberdade. Neste Portugal a duas velocidades, talvez façam mais sentido hoje essas palavras do que na altura em que foram proferidas, mas o certo é que elas podem ainda continuar a fazer mossa. Uma das questões que se põe em relação a Menezes é se ele conseguirá projectar para o plano nacional a sua imagem regional.
Outra é aquela que se relaciona com questões antigas dentro do próprio PSD-Porto. Não esqueçamos as divergências em relação ao próprio Rui Rio.
Mas Menezes tem três trunfos muito importantes. Um, é a obra feita em Vila Nova de Gaia. Outro, é a sua habilidade política em termos de movimentação dentro do aparelho partidário. E depois ainda há o descontentamento com a actual liderança.
Outro aspecto que parece ser possível adivinhar é que, com Menezes à frente, o PSD vai fazer muito mais barulho. Vai aborrecer mais o Primeiro-Ministro porque não vai estar calado nem embarcar nos apelidados pactos de regime que outra coisa não são do que um modo hábil de calar a oposição.

Olho os que se perfilam para serem líderes do PSD e surge, porque comparo, aquela sensação de vazio, aquela insatisfação que só o militante do PSD conhece e que atrás relatei. Recordo novamente os tempos em que acreditava!
Daqui até Setembro gostava que mais alguém ousasse candidatar-se. Não acredito que tal vá ocorrer, mas gostava.
Quem? Não sei.


3 comentários:

pandacruel disse...

Para quem não é militante de um partido as coisas põem-se mais ou menos assim:
- vale a pena que haja um terceiro candidato forte, que diga a verdade nestes termos e a partir destes pressupostos:
- uma pessoa com dinheiro e vida, pelo que não pode ser muito nova; o dinheiro serve para aguentar o barco, a vida para pensar antes de sair mais do mesmo;
- uma pessoa que tenha viajado pelo mundo e que mantenha o carácter português, que é...;
- uma pessoa que não se ponha de gatas perante os bacocos que, em Europa, nem atrasam nem adiantam e que, por outro lado, sabendo reconhecer os feitos do tempo do betão, avance para a qualificação dos recursos humanos sem demagogia barata;
- uma pessoa que tenha o dom da palavra quando a usa;

- um pessimista optimista.

Tenho dúvidas que possa ser, nesta fase, uma mulher - mas, por favor, não me deitem fogo (seria fastidioso explicitar as razões aqui).
Chega de vinho tinto e de farinha amparo.

Anónimo disse...

Publicação deliciosa.
Duas ou três coisitas:

Espero que o partido continue a pensar o que sempre pensou do Menezes - isso chega para não ser eleito. Esta vontade é egoísta: vivo em Gaia e o Menezes ficará (estou convencido disso), o que é bom para nós, pois ele deverá ser, nesta altura, um dos melhores autarcas do país. Em tempo: não tenho dúvidas da capacidade que teria para projectar no país o que faz na minha cidade;

Percebo e concordo com a ideia do partido ser refém dos dois referidos. Considero que um era um político brilhante, que nunca se afirmou como estadista (por culpa das condições do tempo em que actuou); o outro um bom estadista, que nunca se afirmou como político (creio que não precisou disso, sequer).

Fica a questão do terceiro candidato. O Aguiar Branco teria sido uma boa opção (garantia que o Menezes não chegava lá); outro, só se aparecer a fazer a rodagem do automóvel. E as directas fecham a porta a um desses, acho eu.

Quanto às directas, Pffff. Valem consideravelmente menos do que se apregoa.

Para acabar (isto já vai longo): Ao contrário do que a publicação sugere, acho que a diferença na gestão do Estado, que já era pouca, será nenhuma, depois de Sócrates. A acontecer, só quando o ciclo se fechar e outro do PS surja. Se acontecer, o que duvido muito (a DIFERENÇA, já que Sócrates durará os 2 mandatos da ordem).

Por isso me encanta o que dizes sobre o papel dos partidos. E me desencanta a alternativa que ... não existe. Esse é o problema da democracia - não tem alternativa nem se regenera.

Anónimo disse...

A 3ª pessoa só vai aparecer mais tarde. Quem ganhar agora (e vai ser o Marques Mendes) vai ser o líder do deserto.
O Aguiar Branco tem ainda muito caminho para andar e nem sei se terá pernas para isso.
Pode ser que, brevemente, o António Borges tenha um carrito a precisar de rodagem...