domingo, 30 de setembro de 2007

Apontar o que ESTÁ BEM

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Vamos fazer de Outubro o mês do "dedo" do bem. Vamos apontar o dedo às coisas boas que conhecemos. Este é o verdadeiro desafio.
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Falar do que está mal, é fácil. Apresentar soluções, é bem mais difícil.
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Tarefa complicada é mostrar o que está bem - não pela raridade dos factos, mas pelo que desnuda, no que respeita às nossas convicções, tendências e tentações.
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Começo por uma pessoa que está de saída, para entrar noutros mundos.
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Tenho quase 50 anos. Nasci e cresci em Vila Nova de Gaia, cidade vizinha do Porto e pelo Porto abafada. Dormitório que sempre quiz ser mais. Grande no espaço, na gente, na vontade de se afirmar.
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Os estúdios do Porto da RTP foram sempre em Gaia. O vinho generoso enriquece em Gaia, mas deu e dá nome à capital do Norte.
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Não tenho memória de reais investimentos pessoais que projectassem a cidade. Conheci uma boa dezena de responsáveis pela edilidade que trabalharam com maior ou menor denodo, mas nenhum logrou edificar um lugar aprazível, desenvolvido, moderno e modelar.
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Até que chegou Luis Filipe Menezes. Não esperava muito, à data. Não pertenço ao quadrante político onde ele se move, antes me situo em espaço ideológico bem afastado.
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Mas a realidade não se compadece com pré-conceitos, com concepções puramente teóricas.
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Menezes investiu na cidade. Muito. Pode ter tido motivos egoístas, mesquinhos, desprezíveis. Mas deu muito, sobretudo de si. Correu riscos, enfrentou adversários poderosos, avançou nas ideias e levou à prática. Fê-lo de forma coerente e, mais importante ainda, de forma constante.
Não adormeceu à sombra do que começou a fazer, nunca parou, construiu sempre.
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Dois aspectos registo, na sua governação: não se mostrou satisfeito, nunca, nem nos melhores momentos. A sua vereação, os que com ele trabalharam, foram sempre substituídos, no momento de iniciar novo mandato. Por muito bem que tivessem desempenhado a tarefa, por muito importantes que (se julgassem ou que) fossem. A sua ambição não é (não foi, em Gaia) limitada. E nunca deixou de actuar, de fazer o que pensava ser certo, fossem quais fossem os grupos de pressão. Mesmo que representassem uma fatia significativa dos seus eleitores ou dos seus financiadores. Nem os aspectos menores o fizeram perder tempo.
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Alguns exemplos da sua obra política:
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O realojamento não se centrou num local, antes se espraiou por todo o concelho. Não criou bairros socialmente degradados, não ghettizou pessoas;
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A requalificação, com preocupações ambientais, foi sempre um objectivo prioritário. Não em função dos interesses dos mais abastados, mas dos seus munícipes. A Ribeira de Gaia, a Costa Marítima e o centro da cidade são bons exemplos;
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O que não dependia de si não era abandonado, alijando responsabilidades que seriam doutros. As vias de comunicação que atravessam e circundam a cidade são admiráveis obras de outros, que só se concretizaram nos seus mandatos;
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Não desprezou o desporto e a cultura. Atraiu instituições de relevo - o F. C. do Porto, o TEP, esteve na construção de infra-estruturas culturais e desportivas - as piscinas nas freguesias, os poli-desportivos, a Casa da Cultura, os estádios do Candal e de Canelas;
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Apoiou a Educação, sem se desculpar com os deveres do poder central.
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Por último, que isto já vai longo: ao contrário do que acontece com a generalidade dos municípios do país, V. N. de Gaia tem visibilidade, no que foi feito. Também terá ultrapassado os limites do endividamento, terá desviado verbas de uma rubrica para outra, estará a dever a muita gente, mas, pelo que se pode constatar, o destino foi o concelho. E isso, para mim, munícipe de Gaia, basta.
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Em tempo: não sei como será, à frente de um partido político com dimensão nacional (ainda que se mantenha na Câmara de Gaia, para ter uma plataforma de intervenção pública, considero que já cá não mora); nem como será, se lhe confiarem os destinos do país.
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Mas os indicadores que construiu, enquanto responsável pela minha cidade, são muito bons.
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Conhecendo a capital do país como conheço, Luis Filipe Menezes não se deve esquecer do que disse, que se mantém actual (sulistas e elitistas) e de Fernando Gomes. A outro nível, mas também indicador a não menosprezar.
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domingo, 23 de setembro de 2007

Com vero rasgo

a) Há escolas completas e incompletas (segundo a terminologia fundadora do século XIX, adaptada ao século XXI).

b) Os pais – ou quem as suas vezes fizer - escolhem as escolas, segundo o que desejam para os filhos ou afilhados; se não cabem, o Estado custeia a deslocação para outra escola do mesmo tipo.

c) As actividades propriamente lectivas começarão na primeira semana de Outubro, durante 26 semanas, correspondendo a um ano lectivo.

d) Nas escolas completas, tanto a carga horária de cada disciplina como o número de disciplinas por ano de escolarização são variáveis. As disciplinas não são estanques e as planificações prévias são o tudo que é nada. O dia a dia será discreto – que a vida é mais que «aquilo» e, em boa parte, pré-existe sempre «àquilo». A vida continua e expande-se por fora e por dentro-fora.

e) Nas escolas incompletas o currículo será uniforme, talhado pelos técnicos superiores do ministério ou ministérios que se sintam vocacionados para chamar a si o ensino, a aprendizagem e o plano previamente traçado, no interesse macro-teórico do país. Aqui haverá diplomas, notas e exames, como desígnio objectivo para uma sociedade que realça o mérito assim conseguido. Avaliação de professores por professores mais qualificados é uma invenção refundadora de todo o edifício escolar, desde D. Maria I. Produzir-se-ão estatísticas para o «mercado comum europeu». Haverá felicidade decretada.

Porto, 26 de Abril de 2010

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Um sinal dos céus

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Hoje estou amargo. Tudo o que aconteceu, ao longo do dia, foi doloroso, penoso mesmo.
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Vi o lado lunar de algumas pessoas. As vantagens pessoais a derrotar a ideia do melhor para a comunidade. A mesquinhez e a visão redutora, empalada, que a assiste.
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Ouvi descrições de prepotência. Dos que, controlando um qualquer organismo, sabendo-se detentores da força da maioria, espezinham e desrespeitam os que estão em minoria.
Um líder que aponta o dedo a quem o afronta, só porque o faz, só porque existe. Não às incapacidades, às inabilidades ou à falta de talento para desempenhar o cargo em disputa.
Já ontem tinha ouvido um a queixar-se de não ter tido condições para fazer, face a outra a vangloriar-se do pouco tempo que precisou para também fazer. Quanto à qualidade, à pertinência, à utilidade real do que (não) foi feito, nem uma palavra.
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Assisti (volto ao presente) a uma notícia de pequenez. Vivo num país em que as pessoas só encontram solução para os seus problemas se forem (imaginem!) a Cuba. Em que se diz que, pelo menos uma pessoa, porque foi demasiado tarde, não tem já solução para o seu problema. Em que outros, bastantes (um que fosse já era muito!) afirmam que esperaram por uma solução no nosso país durante 10, 12, 15 anos. Sem nunca a terem.
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Agora, somem isto: a solução passa por uma intervenção cirúrgica SIMPLES! O responsável nacional pela solução diz que bastaria que os profissionais fizessem mais UMA consulta e MEIA intervenção por dia para não haver mais problema(s) deste tipo (listas de espera). Ao mesmo tempo, confirma que tem 5 (cinco!) profissionais em toda uma região do país, que tem centenas de milhares de habitantes. Que aguarda a resposta de profissionais estrangeiros para resolver (este) problema.
Na altura em que todos sabemos que entraram (apenas) umas dezenas de jovens nas instituições superiores que os preparam. E que, nesta área específica, nem uma mão cheia se forma, todos os anos!
Ele, o responsável, acha positivo, acha que é uma coisa boa, as pessoas irem a Cuba resolver este problema (de solução simples!). Acha bem que as Câmaras os subsidiem. Acha bem ... ele e o seu representante no local!
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peço desculpa pelo pessimismo. Mas hoje sinto-me assim. PORQUE A NOTÍCIA TINHA UM AR NATURAL, DE COISA COMESINHA, não escandalosa. Antes que eu me sinta demasiado mal com o país em que me forçaram a nascer e em que escolhi viver, por favor apontem-me alguns exemplos de coisas boas - mas melhores que a trasladação de Aquilino Ribeiro para o Panteão. Por favor!
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Já agora, e ao menos por uma vez, Viva Cuba! Agora entendo melhor o ar altivo dos cubanos, quando falam da sua ilha - ainda que vivam em MIAMI.
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sábado, 15 de setembro de 2007

Temas (pouco) interessantes

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1 - Scollari
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Ser treinador significa ser modelo, para os seus atletas tanto quanto para o público;
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Ser treinador de uma selecção nacional reforça esse papel. Se a modalidade de que se tem essa responsabilidade é a mais seguida pelo público, a mais vista, maior importância assume esse papel (desempenhado).
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Os resultados desportivos não deixam de ter importância similar. E o que conta, para mim, é a qualidade e quantidade dos resultados que se atingem. De facto, ainda que as condições sejam diferentes e mais favoráveis, a verdade é que, antes de Scollari chegar, os resultados eram fracos, medíocres mesmo. Com ele, uma presença numa final de um europeu e uma outra nas meias-finais de um mundial foram conseguidas.
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Todos tem (ou devem ter) a oportunidade de cometer um erro e emendá-lo. De se desculpar desse erro e ser desculpado. Até o treinador da selecção nacional de futebol.
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Acredito que o próprio poderia (e, se calhar, deveria) ter sido mais exigente consigo que os outros (todos). Se se demitisse, só lhe tinha ficado bem. Pedindo desculpa, como o fez. Com humildade, que não teve.
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Mas acredito que pode (e deve) mostrar que o que aconteceu foi pontual, marginal e não significativo. Espero que assim seja. Até porque a margem para o erro desapareceu. E o sucesso ou insucesso deste apuramento deve ficar ligado ao responsável pela campanha. Logo, ele deve terminar a fase. Logo se vê se é tão bom como aparenta. Sem dúvidas: se Portugal se apurar para a fase final, com ele no comando, é mesmo bom.
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Em tempo: não gosto do homem, que cedo descobriu o confronto norte-sul do futebol e se acoitou à sombra dos poderosos - ainda por cima, contra os "meus".
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2 - Maddie
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Poderia, com legitimidade, afirmar que sempre soube e disse, desde os primeiros dias da tragédia, que a menina estava morta. Não por conhecer qualquer dado que os outros não dispunham. Ou por ter poderes mágicos exclusivos. Apenas por aplicar a lei das probabilidades, face a outros casos (números) do mesmo tipo. Reconheço que, no início, não coloquei os pais como os principais suspeitos. Acreditei que outro(s) foram os responsáveis.
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Mas sofri do síndrome da bondade parental. Os actos praticados pelos pais, a cruzada pela recuperação da menina, a presença constante nos media, procurando manter viva a esperança e a imagem da criança, como desaparecida e recuperável, ajudou. Esqueci que os homens são assim mesmo, capazes dos mais heróicos e altruístas gestos quanto das mais monstruosas actividades - sendo desconhecidos ou família, pormenores absolutamente irrelevantes.
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Pelos conhecimentos que vou acumulando, será mais fácil para mim aceitar que os pais sejam suspeitos, mesmo os principais suspeitos, pela morte da pequena Maddie.
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No entanto, considero que devemos ter em conta duas pequenas (enormes) notas:
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Seremos todos melhores pessoas, sem ingenuidades bacocas, se soubermos esperar que se comprove a culpa, seja de quem for. Enquanto suspeitos, os pais não são culpados. Merecem a nossa indulgência e paciência. Merecem ser tratados com consideração e respeito. Merecem ser deixados em paz.
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Mas também devemos saber ler nas entrelinhas, nas acções que se praticam, na forma como tudo se desenrola. Ser exigente, não desculpar formas de agir desiguais, tratamentos preferenciais para quem tem ou está perto do poder.
Não é possível considerar que a não recuperação do corpo não é relevante, para condenar a mãe da Joana, é já o passa a ser, para possibilitar a desculpabilização doutros suspeitos, próximos de poder persuasivo, influente; ou que os indícios são suficientes para decretar a prisão preventiva para o primeiro caso citado, e agora nem sequer são impeditivos da saída do país para os segundos referidos. Algo vai mal nesta forma de praticar a justiça. Muito mal.
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Em tempo: sou muito crítico do nosso sistema judicial. Acho que funciona mal, não garante coisa nenhuma. Mas este caso não se coloca ao nível do sistema. Está no desempenho das pessoas. Tão-somente.
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quinta-feira, 6 de setembro de 2007

De repente, pode o mundo desabar?

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Quando a ministra anunciou, com ar sério e compenetrado, que os problemas da educação eram responsabilidade directa dos Professores e, sobretudo, da sua progressão na carreira, que assentava no tempo de serviço e não no mérito, os atingidos, duma forma mais ou menos generalizada, sentiram-se ofendidos e injustiçados.

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Quando a mesma personagem publicitou a solução encontrada, que passava pela divisão da classe (se existe tal arranjo profissional) em dois níveis hierárquicos, surgiu a indignação. Todos foram, eram e seriam, até ao fim, apenas e só Professores - significando este só uma imensidade!

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No momento em que concretizou a medida, já a responsável principal pela Educação respirava satisfação. Era notório, como se confirmou no concurso de candidatura a Professor Titular, que a possibilidade de se erguer a esse patamar era mais do que lisonjeador para os interessados. Nem importava que o tempo de serviço (aquele factor tido como maléfico) fosse o factor mais relevante para lá chegar! Era um objectivo essencial, fundamental, que não podia ficar deserto, sob pena de não se integrar o reduzido número de eleitos, onde ficaria a nata do professorado.
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Foi um corre corre, em que não deixei de correr correr também. Os que sabiam que iam ser, os que achavam que tinham possibilidades, os que só tinham algumas expectativas e até os que sabiam que não iriam lá chegar perfilaram-se e candidataram-se. Fizeram contas, para si e para os directos competidores, procurando descobrir ou certificar a sua posição. Trabalharam para outros menos aptos em contas, para os ajudar no mesmo objectivo.
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O tempo de espera foi miudinho, em termos de nervoso, de esperança ou de crença – que os milagres não deixam de acontecer.
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No dia em que os resultados do concurso foram divulgados, havia muitos mistos – de satisfação com alguma modéstia ou indiferença no semblante, para os escolhidos; de resignação, com alguma inveja ou desdenha, nos relegados para a condição do que sempre foram – Professores.
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Vieram as férias e algum descanso, também na inchadura do peito.
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Agora regressa-se à função e, subitamente, de forma inesperada, como um murro nos olhos ainda mal abertos, despertam todos para a realidade.
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Os Professores com a confirmação de estarem condenados a (con)viver com um patamar demasiado alto para lá se acoitarem, ocupado por gente que, tendo sido par, agora é algo mais. Percebem que alguns cargos, que ocuparam com gosto e com profissionalismo, está nas mãos doutros, que nunca os quiseram e que, em muitos casos, os não merecem; sentem-se, sobretudo, sufocados.
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Os titulares com a descoberta, dorida, que os cargos que vão ter que desempenhar são, normalmente, mais, muito mais do que aquilo que gostariam de ter. Sentem que lhes foi feita uma proposta enganadora, que aceitaram sem a antecipar as consequências. Tudo lhes cai nos ombros. Responsabilidade, trabalho, ocupação e deveres são como as estrelas, frios e incontáveis. Coordenar grupos de pessoas, acompanhar percursos escolares, preparar e aplicar instrumentos, equipamentos, estratégias e planos, avaliar e reformular, contactar e assumir, tudo lhes cabe.
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De repente, muito de repente, um sorriso perpassa pelos lábios dos que, querendo lá chegar e não o conseguindo, não estão lá. Não lhes cabe fazer, não lhes compete desempenhar, não vão ter a maçada … que está reservada aos que lá chegaram. Os que estavam (sempre) dispostos a aceitar, ficam do lado de cá do peditório. Os que não olhavam sequer para a sacola, agora seguram-na e não conseguem libertar-se dela. O seu mundo trancou-se, ruiu, esfarelou-se.
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O respirar fundo surge do lado dos que não se sentiram bem, no processo de selecção. Pelo menos, por agora. Porque o tempo, esse velho senhor, não costuma passar sem deixar os seus sulcos bem marcados. Apresentar-se-á a todos, permitindo aos que agora sentem a solidão das alturas perceber o perfume do poder; e aos que sorriem face ao desconforto daqueles, a movimentação para os alcançar. O mundo pode desabar, mas recompõe-se rapidamente.
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sábado, 1 de setembro de 2007

Barroso, como Eça, continua actual

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Envia-me o Pandacruel um texto de Alfredo Barroso, cunhado de Mário Soares, publicado há 1 ano (em Setembro de 2007), no semanário Sol.
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Porque há coisas que não podemos olvidar nem deixar que os outros esqueçam;
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Porque a actualidade do texto não só se mantém, como estará mesmo reforçada;
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Porque diz o que eu também penso, usando uma forma que basta;
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E porque me faz lembrar os tempos do PREC (Processo Revolucionário em Curso, 74-76), onde a minha militância política (curta e modesta) me fazia proclamar a evidência da "irmandade siamesa" entre Ps e PPD, que Barroso regista e realça,
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Aqui publico excertos desse texto, mais uma vez com a devida vénia ao autor e ao semanário:
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OS POBRES QUE PAGUEM A CRISE!
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Por Alfredo Barroso
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O ESTADO de completa devastação ideológica em que se encontra o PS pode ser avaliado pelos resultados obtidos ao cabo de dois anos de governação. Empenhado em meter o país nos eixos, o Executivo chefiado pelo sempre severo e temível engenheiro Sócrates cometeu uma proeza (in)digna de qualquer partido socialista que se preze: uma redução rápida e brutal do défice do orçamento do Estado e uma subida vertiginosa das desigualdades sociais; um aumento algo pindérico da taxa de crescimento do PIB e uma diminuição bastante significativa do poder de compra dos trabalhadores. Mais: enquanto o desemprego se situa a um nível muito alto e a precariedade se generaliza, as grandes fortunas prosperam, tendo crescido 35,8 por cento em relação a 2006. Um escândalo. Se estes são resultados dignos de um governo socialista, vou ali e já venho.

PARECE ABSURDO que o combate à crise económica e financeira, levado a cabo por um governo pretensamente socialista, em nome dos superiores interesses do país, resulte em maiores desigualdades sociais, mais precariedade, mais desemprego e mais pobreza, ao mesmo tempo que as grandes fortunas aumentam vertiginosamente. Mas, como dizia Napoleão, «em política, o absurdo não é um obstáculo». Não se contesta o papel crucial da propriedade privada e do capital no desenvolvimento de uma sociedade aberta, livre e democrática. Mas é legítimo perguntar que contribuição têm dado os mais ricos para combater esta crise tão grave. Queixam-se de que o Estado os estrangula, mas a verdade é que as suas fortunas crescem a olhos vistos, ao mesmo tempo que as classes médias empobrecem e os trabalhadores sofrem os efeitos da técnica da banda gástrica que este Governo decidiu aplicar-lhes para lhes reduzir o apetite. O que é indecente.

AS CHAMADAS «práticas clientelares» (mais evidentes ao nível autárquico) e de «governo paralelo» (das grandes empresas e interesses financeiros) impõem-se, hoje, aos partidos do «bloco central». Por isso, não espanta que a passagem do poder do PSD para o PS (e vice-versa) não seja mais do que «saltar do lume para a frigideira». Dizem as boas línguas que o Governo do engenheiro Sócrates tem feito «reformas muito corajosas». Eu, que sempre fui má-língua, limito-me a perguntar: é preciso coragem para exigir aos pobres que paguem a crise?!

«Sol», 1 de Setembro de 2007
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quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Retomar costumes

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Alguns assuntos leves, para recomeçar.
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Recebi um telefonema dos responsáveis pelas Novas Oportunidades. Respondendo ao que eu havia questionado por correio electrónico, disseram-me que, em Setembro, as Escolas iriam receber os códigos de validação para os Professores e para os Alunos. Só aí se irá iniciar o processo de aquisição, a preços módicos, dos computadores portáteis.
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Uma informação mais me foi dada - no caso do Professor ter um filho a iniciar o 10º ano, só podem adquirir uma máquina. Parece que os portáteis não são para sair de casa. Ou os Professores pais e os seus filhos, que vão frequentar o 10º ano, vão poder ficar em casa todo o dia, assim usufruindo, ambos, do computador. Esta gente tem cada uma!
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Ouvi hoje que, a partir de agora, haverá crédito para os estudos superiores, a juros bonificados e sem garantias. Quanto melhores forem os resultados, mais baixo o juro. Dizia o nosso "primeiro" que esta medida procura contribuir para evitar que problemas económicos impeçam a formação superior. Mais disseram que só Portugal, na União Europeia, não tinha uma linha de crédito deste tipo.
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Duas questões: como é possível Portugal ser o último país da UE a criar esta medida?? Logo nós, que temos uma população com tão pouca formação académica do nível mais elevado ...
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E porque diabo a primeira reacção que surge é o medo da medida implicar aumento nas propinas? Somos nós que temos a mania de inventar e precipitar os problemas, ou há gente que não consegue esconder as segundas (terceiras, quartas) intenções?
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Para terminar, futebol. Fernando Santos, o engenheiro do penta, saiu do Benfica. Como saiu do Sporting. Como (não) saiu do Porto. Rápida e discretamente. Sem ganhar (quase) nada. No entanto, consegue ser um dos poucos, se não mesmo o único, treindor português a treinar os três grandes clubes. Quem disse que é preciso talento para se ter sucesso? Há, de certeza, (muitos) outros factores.
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Posted in assedio.blogspot.com/2007_01_01_archive.html (não vá acontecer-me o mesmo que ao meu Presidente ... mas ele esperava o quê????)

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domingo, 5 de agosto de 2007

A formação e a avaliação dos Professores

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A Formação é contínua. A Formação Pessoal realiza-se ao longo da vida. A Formação Docente é intelectualmente mais exigente.
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São três afirmações interligadas e inseparáveis, se se considerar que se destinam aos Professores. Serão pacíficas, para todos.
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A motivação tem origens intrínsecas e exteriores ao indivíduo. As motivações intrínsecas registam níveis/graus correspondentes ao nível de formação do indivíduo. Os Docentes devem registar níveis ou graus elevados de motivação intrínseca. Na carreira dos Docentes estão contidos os mais relevantes factores exteriores de motivação.
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Poderá não ser tão pacífica, esta visão, mas é, no mínimo, aceitável.
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A Formação de Professores acontecer por decreto, por imposição legal, é uma realidade estranha. Por isso, a questão fundamental: é necessário impor, legalmente, Formação aos Docentes?
Sem estudos científicos a suportar a resposta, apenas com a sensibilidade e experiência de quem se movimenta nesse mundo há duas dezenas de anos, direi que sim, é absolutamente necessário. Porque uma parte significativa (que não tem que ser maioritária) dos Professores, se tivesse livre arbítrio nesta questão, acomodava-se à formação básica e assim continuaria.
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A imposição legal reduz a Formação obrigatória à área científica do indivíduo e às necessidades registadas pela Escola onde desempenha funções. A formação de cariz pessoal, de desenvolvimento pessoal, não está contida neste âmbito compulsivo. Mais: para ligar a Formação à carreira, no período avaliativo, o Docente tem que fazer formação nas duas áreas. Isto é correcto?
Com as mesmas condicionantes da anterior, a resposta é, aqui, negativa. A Formação pessoal é tão relevante quanto a restante. A relação pedagógica vive desta e é tão (ou mais) importante nas aprendizagens quanto as outras formações. E estas não podem (devem) ser impostas na sua natureza: há quem precise de formação científica para melhorar, devendo apostar só nela, e há quem deva responder só às necessidades da Escola. Deveriam ser estes agentes - Professores e Escola - a decidir qual a mais premente, em cada momento (avaliativo). Para ter a possibilidade de receber motivação externa (progredir na carreira), o Docente não deveria estar sujeito a Formações que nada lhe dizem ou não são relevantes para a instituição onde trabalha. Ou seja, como está previsto, uma motivação (intrínseca) pode ter que ser afastada para se aceder à motivação exterior. Isto é, na prática, um disparate.
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Idêntica asneira está na imposição de quotas para acesso aos níveis superiores da carreira. Criar novas exigências para esse desiderato, ser excepcionalmente exigente, só promover quem atingisse, nestas condições, níveis qualitativos de excelência, níveis esses confirmados por pares ou por outros, seria uma solução bem mais adequada – mantinha os níveis de motivação exterior elevados.
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Mas este aspecto da questão parecer ser chão que já deu uvas.
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Férias, aí vamos nós. Voltamos já, já.
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quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Contra a pequenês e em nome dos que desanimam da pedagogia

Cantará um galo no Castelo de Faria se...

...as cartas ao poder ou ao contra-poder passarem por aqui:

- abertura de concurso para que os doutorados e pós-doutorados assumam um papel científico-pedagógico (com prioridade para o primeiro tramo), que se há-de traduzir na elaboração de relatórios não laudativos (o país tem caminho a arrepiar, a juventude não se cansa e a auto-estima está na média) em torno da actividade das escolas em que deveras assentem pé todo o ano, integrando os seus quadros e sujeitando-se a exposição pública.

- admissão alargada de reclamações e exposições, por parte de quem se sente injustiçado, para além do Agosto habitual de férias, dando provimento a milhares dos catalogados – nossa senhora, ao fim de três décadas de ensino, muitos deles – de «NÃO PROVIDO».

- abertura de um período de aposentações antecipadas sem aquela penalização que leve mais de vinte e cinco por cento dos direitos supostamente adquiridos por se terem meia dúzia de anos a menos na conta sinistra derivada das regras mudadas de supetão (o ser assim para todos é uma afirmação pobrezinha).

- fim da descaracterização funcional que tem permitido, a alguns conselhos executivos, coagirem docentes especializados num ramo do saber e num determinado ciclo de ensino, tomando-se literalmente conta de crianças fora do recinto escolar habitual e de uma forma abstrusa por que impiedosa e desastradamente polivalente (a história recente dos agrupamentos permite leituras enviesadas e anti-pedagócias, se o fulano ou fulana que tem as galonas naquele momento assim o entender).

- culto da humildade esclarecida pelos contributos não apenas dos pares mas também dos subordinados e de outros.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

PSD: Que liderança?

No artigo que recentemente escreveu, “Contra o medo, liberdade”, Manuel Alegre dizia a dada altura, quando se referia às oposições ao actual Primeiro-Ministro: “A verdade é que não se perfilam, por enquanto, nenhumas alternativas à sua liderança. Nem dentro do PS nem, muito menos, no PSD.” Alegre constatava uma evidência. Não é algo que não fosse possível de perspectivar há dois anos atrás. É, de certo modo, natural que dentro do PS não sujam vozes dissonantes. A maioria tem que dar imagem de consenso e apoio ao Governo. Afinal as sondagens continuam a ser favoráveis! Por outro lado, não é fácil ser oposição a uma maioria absoluta e muito menos quando não se perspectivam eleições à porta! Não foi por acaso que só dois candidatos quiseram lutar pela liderança do PSD aquando da última contenda pelo cargo. E mesmo um deles, Filipe Menezes, só o fez porque tinha um objectivo maior: estava mais interessado em ganhar o seu espaço de potencial candidato em próximas disputas do que, propriamente, ganhar aquela em questão.
Daí a trivialidade da constatação. Os críticos do PS não têm condições favoráveis à contestação e o PSD vive o pior cenário para actuar como oposição.

Este panorama não é novo em Portugal. Aconteceu há bem pouco tempo, primeiro nos tempos áureos do Governo de Cavaco Silva e depois, durante menos tempo, nos primeiros anos de governação de António Guterres.

Aproveitei a citação de Alegre porque ela é de todo actual em tempo de eleições no PSD. Sou militante deste partido há muitos anos e partilho dos seus fundamentos há alguns anos mais. E, como militante, renovo nestes tempos a esperança de ver no meu Partido uma liderança forte, capaz de me fazer acreditar, de novo, que são os ideais relativos à pessoa humana e à sua vivência em sociedade que estão na base da acção política.

Existe uma dificuldade que só os militantes do PSD têm na altura de escolher um líder para o seu Partido. No seu subconsciente estão sempre duas referências, Francisco Sá Carneiro e Aníbal Cavaco Silva, que pelas suas virtudes e carismas tornam muito difícil a escolha de um novo líder. É impossível não fazer a comparação, pelo que, saímos sempre um pouco desiludidos com as novas escolhas.
A verdade é que, apesar das suas competências, os últimos eleitos nunca satisfizeram as nossas ambições. E o PSD é assim, vive muito do seu líder, do seu carisma em especial.

Que dizer então do próximo acto eleitoral no PSD e dos candidatos que se perfilam?
A primeira observação refere-se à vontade de ir a votos. A ideia que transparece é que ainda é cedo. Há mais dois anos de oposição pela frente. Talvez daqui a um ano a vontade de ser candidato seja maior.
Marques Mendes leu bem esta realidade. Sabendo da pouca vontade dos seus “incógnitos” opositores internos obrigou-os a decidir: ou revelam-se agora ou esperam mais dois anos!
Filipe Menezes viu-se numa encruzilhada. Foi ele que deu a cara como oposição interna e, sabendo que este talvez não seja ainda o timing certo para si, foi obrigado a decidir.
Há ainda um terceiro candidato cujo o impacto no resultado final me parece ser reduzido.

Marques Mendes foi, para alguns, uma desilusão.
Não partilho desta ideia mas reconheço que faltou alguma coisa. As condições foram complicadas. Até se obtiveram algumas vitórias (nas autárquicas, por exemplo). A comunicação social nunca rumou a nosso favor, é certo. Mas alguma coisa faltou. Houve falhas imperdoáveis sob o ponto de vista de visão política (esta da Câmara de Lisboa foi uma delas!). O Governo esteve sempre muito à vontade para fazer o que bem entendeu. A Democracia ficou a perder e a nossa vontade participar é cada vez menor.
O próprio partido não recuperou de certos vícios que o enfermam. O aparelho, nacional ou local, deixa pouco ou nenhum espaço para a discussão do que é importante. Onde está a abertura à sociedade? Revejo-me cada vez menos nos que suportam ou fazem parte desse aparelho e, com isso, esqueço os princípios e as ideologias que me fizeram dar a cara por este Partido. Dou por mim a questionar o papel dos partidos no actual sistema político. Farão ainda sentido? Se não são os ideais que nos unem o que nos unirá então? O que justifica sermos Partido?

Uma liderança com Luís Filipe Menezes é difícil de perspectivar.
Um olhar pela história leva-nos ao congresso em que proferiu as célebres palavras “sulistas, elitistas e liberais” que o remeteram a uma clausura que só em termos regionais lhe permitiu alguma liberdade. Neste Portugal a duas velocidades, talvez façam mais sentido hoje essas palavras do que na altura em que foram proferidas, mas o certo é que elas podem ainda continuar a fazer mossa. Uma das questões que se põe em relação a Menezes é se ele conseguirá projectar para o plano nacional a sua imagem regional.
Outra é aquela que se relaciona com questões antigas dentro do próprio PSD-Porto. Não esqueçamos as divergências em relação ao próprio Rui Rio.
Mas Menezes tem três trunfos muito importantes. Um, é a obra feita em Vila Nova de Gaia. Outro, é a sua habilidade política em termos de movimentação dentro do aparelho partidário. E depois ainda há o descontentamento com a actual liderança.
Outro aspecto que parece ser possível adivinhar é que, com Menezes à frente, o PSD vai fazer muito mais barulho. Vai aborrecer mais o Primeiro-Ministro porque não vai estar calado nem embarcar nos apelidados pactos de regime que outra coisa não são do que um modo hábil de calar a oposição.

Olho os que se perfilam para serem líderes do PSD e surge, porque comparo, aquela sensação de vazio, aquela insatisfação que só o militante do PSD conhece e que atrás relatei. Recordo novamente os tempos em que acreditava!
Daqui até Setembro gostava que mais alguém ousasse candidatar-se. Não acredito que tal vá ocorrer, mas gostava.
Quem? Não sei.